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Perante as coisas que simplesmente existem

Diário

XXVI

Às vezes, em dias de luz perfeita e exacta,

Em que as coisas têm toda a realidade que podem ter,

Pergunto a mim próprio devagar

Porque sequer atribuo eu

Beleza às coisas.

Uma flor acaso tem beleza?

Tem beleza acaso um fruto?

Não: têm cor e forma

E existência apenas.

A beleza é o nome de qualquer coisa que não existe

Que eu dou às coisas em troca do agrado que me dão.

Não significa nada.

Então porque digo eu das coisas: são belas?

Sim, mesmo a mim, que vivo só de viver,

Invisíveis, vêm ter comigo as mentiras dos homens

Perante as coisas,

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.

Que difícil ser próprio e não ver senão o visível!

(Fernando Pessoa)

Um dia desses eu comecei a assistir uma série chamada “A história de deus com Morgan Freeman” e um dos episódios falava sobre o princípio budista da impermanência, que me tocou profundamente. Eu já fui uma pessoa crente e muito empenhada na comunidade religiosa, mas em algum momento isso mudou e atualmente eu não tenho interesse em me envolver com nenhuma religião e com nenhum tipo de culto. Mas às vezes eu me deparo com alguns conceitos religiosos que por si só despertam coisas boas em mim e eu acho isso uma coisa incrível. É o caso desse princípio da impermanência que diz mais ou menos que “nada dura para sempre e que tudo se transforma continuamente e caminha para a própria dissolução”.

Mas é um pouco mais do que isso, é também a crença de que todos os seres estão conectados e que, inevitavelmente, as nossas ações geram ações que de alguma forma tem um retorno sobre nós mesmos. Eu tenho uma personalidade de combate e pra mim sempre foi muito difícil aceitar as coisas como elas são (se são diferentes de como eu quero que elas sejam) e eu costumava não saber como reagir a situações que envolviam desapego ou ficar quieta e não fazer questão de ter sempre razão (mesmo quando eu tenho razão) só para manter a paz. Logo, esse princípio da impermanência chegou pra mim como uma espécie de mantra e desde que eu tive conhecimento disso, acho que as coisas mudaram pra melhor na maneira como eu enxergo o mundo e as pessoas.

É libertador aceitar que as coisas terminam, não fácil, mas libertador. E refletir sobre como as minhas ações têm impacto nas outras pessoas e consequentemente em mim mesma, me faz pensar mil vezes se vai valer a pena ser rude, vingativa ou rancorosa… e eu sigo desistindo de quaisquer dessas opções e vou me ocupando com coisas melhores. Foi assim que eu cheguei no poema que colei na primeira parte desse post. Por mais bobo que seja escrever isso, ele me fez sentir preenchida de coisas boas e por isso decidi compartilhar. Aproveitei pra tirar algumas fotos “perante as coisas que simplesmente existem” e ficar bem tranquilinha nesse domingo nublado.

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